O Amor é um Deus

24 Jul

O amor é um Deus, ela diz.

23 anos.

23 anos e eu, quase ateu, quase não,

Já tendo recebido a fúria

Das labaredas quentes do amor popular de Deus,

Em Alvarado Street.

Eu digo “Amém”.

.

O amor é um Deus, entendemos,

Com medo,

Os dois.

Mas seguimos.

.

Eu, que venho do futuro para colocar

Minhas mãos ferrosas na sua pele de leite

Repousando minhas frustrações

Em suas expectativas.

.

Eu, que temo a navalha,

(Mas nunca a evito).

Que me arremesso contra a adaga da escuridão

Com o peito de coração selvagem,

Lindo selvagem.

.

Eu, que brotei do carma da Terra,

Que dela me projetei vindo do absoluto

Nada.

Que hoje ando pelas ruas – infinito –

Expondo gritos e argumentos,

Leve, exibindo o sorriso

Moldado de tantos amargos.

.

Que caminhei solitário e inchado

Do cheiro de carvalho

Ao meio dia pelas vazias florestas.

Que desviei de demônios

Que desciam das sequoias centenárias

Que me cercaram e dançaram à minha volta.

Que sorriam e me esperavam,

Lindos eternos fedendo a poemas sujos.

Que, da névoa do frio, vi anjos siameses

De duas cabeças, três pernas, quatro braços.

Que me diziam “corra, corra, corra”.

Mas eu jamais acelerei meu passo.

.

Que esperei naquela noite de Natal

Pelo encontro ancestral de tudo o que é ruim

Naquele quarto daquele hotel

Ao fundo de Fairgrounds

Além dos pinheiros.

E que nunca veio.

Porque nunca virá.

.

Eu, que já expus minhas veias e crias,

Que já vomitei ressacas

E rachei dentes e para-brisas

Eu, que já fui encontrado morto

No deserto da pedra vermelha

E me levantei.

E caminhei.

.

Eu, que já fui silêncio e explosão

E já descobri sensações inéditas

Em dezenas de corpos

Cujos sabores já nem lembro mais.

.

Eu, que sou o irmão sem irmão.

.

O Amor é um Deus,

Que brota da planície vazia antes do sol

Berrando o jazz

Gritando, derretendo, explodindo

De dentro do carro

Hot blues, hot blues, hot blues

O pássaro de heroína gorjeia

No riso do escárnio.

….

– Mais alto, mais alto, mais alto!

….

O Amor é um Deus – ela diz

E do líquido seminal da desconfiança

Sugo a expectativa de,

Como em Big Sur,

Aprender a dizer “Amém”.

Araguaia Sunset

O Menino da Fábrica de MMs

16 Jul

Se existe algo que nos deixa autenticamente provincianos, são as nossas certezas. Temos, por certo, a cabeça no mundo, mas num globo ainda menor do que realmente é o planeta que habita todo o conjunto de pensamentos que nos faz existir. Qualquer ordem, traço ou pensamento que nos firme os pés no chão e nos demarque como humano e indivíduo faz residir em nós limitações decisivas. Ter certezas é ser menor. E todo temos. Mas ainda assim giramos por nossas memórias e imaginações. Eu sei que tudo não passa de um delírio ou de uma metáfora. Mas Kundera já me disse por pelo menos duas vezes que o amor pode nascer de uma grande metáfora.

Neste momento, eu, o grande inefável Miguel Spezinatto, o gênio das memórias tristes, misturo licor no café enquanto me permito citar Kundera antes do sol nascer. Acorde de onde estiver, Kundera, e deleite-se. De pijamas, esconjuro demônios e reinvento os sistemas da vida.

E naquela tarde de frio e chuva e nuvens rodeando nossas paredes de vidro, éramos – porque somos – uma tremenda metáfora. Eu quis guardar e guardei o cheiro da sua cabeça, dos cabelos da corredeira dourada de cachoeira infinita. No relato da breve memória, eu vejo ela esconder sua cabeça no meu peito, guardando sua paz e preguiça em mim. Guardei as músicas e os clipes e as histórias sobre gente e sobre circo, sobre o mundo que há no mundo além de mim, e tudo o que ela me mandou assistir e não esquecer. Foi um encontro certo a partir de um encontro besta no qual tudo vai se encaixando, encaixando e entrando numa conformidade que ainda não sabemos onde vai dar.

Miguel Spezinatto dá um longo gole no café etílico e reflete sobre o último parágrafo.

Eu havia cancelado todos os compromissos e tirado a roupa de rua pra poder ficar confortável em frente à TV. Duas e quinze e começamos no vinho. Quarta-feira. Quantas vezes eu não vomitei ressacas em dias assim? Eu já não me lembro porque a minha memória do tempo há muito se encheu e hoje só guardo as passagens afetivamente anexadas a outras sensações. As mulheres e suas línguas foram passando e atravessando a minha casa e o meu corpo e depois seguiram pelas ruas maldizendo o meu viver, as minhas escolhas e, principalmente, as não-escolhas por elas. Normal, eu diria. Eu já me cansei de me importar.

Ela sabe.

E, agora, esta menina. O encontro xamânico. As conversas pela metade se misturam umas nas outras, completando um a fala do outro, formando um emaranhado de ideias em que de alguma forma e em algum momento nós nos repousamos. Que sentimos que podemos cair e cair em cima delas, numa rede de sensações e opiniões e visões que se vertem num tecido doce, de paz.

No picadeiro deste circo, abaixo de nossas peripécias constantes, a rede são as nossas vírgulas, pontos e reticências. São os nossos olhares que pousam um no olhar do outro por poucos segundos até desviarmos, com medo. É uma visão forte demais para se manter assim, talvez pensemos. Talvez eu não pense sozinho. A rede são as nossas trocas de mensagens. Provincianos, colonos. Eu, eternamente preso a esta sensação de infinito. Ela, não sei. Ainda.

E caímos no precipício um do outro.

“Não há paixão, não há amor”, dizíamos, dizemos, repetimos. Não há? O que há são sucessivas vontades de estar perto, de compartilhar casos, de mostrar músicas e cotidianos. Há uma vontade de andar mesma calçada num mesmo dia. Serendipty. Serendiptosas versões do dia que nos colocou frente à frente no meu trabalho noturno, meu terceiro ou sexto turno de trabalho.

Eu, que nunca paro.

Ela, que flutua.

Bebemos vinho no frio nem-tão-frio-assim num não-encontro quando, sei lá em que instante, tudo destravou. Domingo. Desfez-se, desmanchou-se para se reengendrar. Foram sensações recriadas. Descemos as escadas cambaleantes até as teclas do piano, o amigo de todas as solidões, onde as palavras ganham todas as cores. Eu já não sei o que queria ou o que não, mas queria que aquela música não terminasse jamais.

Você está ficando bêbado, Miguel. Ainda não são nove da manhã.

“Você é linda”, eu disse. “Não me olha assim”, ela disse. Ela era. Eu olhei. Um dia eu andarei por um novo planeta, onde não haverá mais ninguém que eu conheço, onde não serei mais chamado pelo sobrenome, onde meus amigos não estarão. Mas esse não é o tal dia.  Um dia fecharei meus olhos de vista profunda e não terão mais as ruas para que nossos encontros na calçada da padaria aconteçam. Haverá um instante de infinito por todas as pessoas que vou deixar ao deixá-las. Mas esse não é o tal dia.

O Deus iridescente poderia me conceder uma última música para que, numa última dança, eu possa deixar o salão bem acompanhado?

Mas esse não é o tal dia. Aquele era o dia de nossos lábios se encostarem milimetricamente. A matemática do desejo é inequívoca por ser ainda mais exata. O café que fiz agora para temperar esta breve memória chega morno à boca, e eu me recordo do gosto da língua grossa dela roçando meus lábios dominicais, do seu sorriso de bicho, de malícia, do meu sorriso que ela não acredita, que faz força para não acreditar, sorriso, sim, de tantos entraves e tantas mentiras que andei contando pra tanta gente. Sorriso das minhas verdades escondidas para enganar, jogar e iludir. Mas no som da última tecla do piano, plim, desfez algum ato para anunciar a chegada do Novo. Seus olhos eram espelhos d’agua.

Um dia, meus dias de mentira sumiriam. E eu passaria a conviver comigo mesmo em verdades. E este pode ser o tal dia.

Plim!

E pensar que eu quase não apareci para lhe conhecer.

Três dias depois, uma quarta. Esta tarde, nesta quinta seguinte de café morno, minha vontade de cagar e a espera do novo dia vem. Meus turnos sem parar de trabalhos esparsos, vem. Três dias depois, ontem, nossos corpos se misturando com medo e desejo no sofá, Chet Faker, Love & Feeling. Furei um compromisso, ela, outro. E depois a academia. “Preciso malhar perna”, e eu cravava minhas mãos de dedos longos no lado de dentro das suas coxas subindo pelos segredos dela e nem ligávamos. Somos mais que os igualmente provincianos corpos, bem além, tão além que a impressão é que desdenhamos desta matéria de delícias que nos excita e desafia. Desistiu da academia e eu, das convicções e de todo aquele talento para mentir. Precisávamos nos separar, não nos separávamos. O café, agora, já está frio. Eu bebo, só tem Kahlua. Então, sinestésico, sinto que minhas mãos ainda estão entre suas pernas, esfregando no calor que explode de dentro dela.

“Olha a minha tatuagem nas costas, eu fiz quando tinha 15 anos”. Eu mordi. Lambi e desci até sua bunda, até ela me empurrar aos gritinhos e nossas risadas se misturarem ao vídeo pausado das crianças no detector de mentiras de mentirinha do programa do Jimmy Kimmel. Somos assim, descobrimo-nos assim: provincianamente universais. Globais no interior do interior do Brasil. “Mandei ver, não morder”, mas ela não sabe, eu gosto de me aproveitar. E de ser aproveitado. A tarde de vinho, sorriso e circo rasgou o calendário e agora já não sei nem mais que dia é ou o que tenho pra fazer.

Miguel Spezinatto, sempre indispensável para que a cidade aconteça, fechou-se em seu apartamento para jamais sair.

O menino-deus do circo, rico, outrora no vídeo da TV à nossa frente aparece no celular mandando mensagens. O menino do circo está numa loja de chocolates MMs em Nova Iorque e afirma estar muito além. Diz ele estar na fábrica de MMs. Eu estou na fábrica das sensações, onde as palavras cessam. Onde tudo é sintonia e ruído. Onde os cheiros e gostos fluem. E sopram. E sobem. E jamais somem.

Eu e o menino estamos nos divertindo e vertendo mágica e imaginação.

Antes de partir, do lado de fora no ainda frio do agora fim de tarde onde três dias atrás tudo começou, eu a beijo, aperto com as duas mãos a sua bunda com força num dos ensaios da nossa despedida daquela quarta. Ficamos assim quando, do nada, pergunto se acredita em Jesus. Tudo o que eu quis fazer no domingo era beijá-la enquanto estávamos nos descobrindo, mas não era um movimento legítimo. Agora, havia se tornado. E ao se tornar, nós nos transformávamos em outras coisas, outras pessoas, outras formas, outras palavras.

Eu apertava sua bunda, falando de religião e perguntando, “acredita em Jesus”?, meio bêbado. Quinze pras seis.

“Isto, esta cena, a carne delicada e deliciosa da sua bunda na minha mão e esta pergunta cretina, é tão bukowskiana…”, foi o que eu disse. Ela concordou. “Isto dá um conto”, emendei. “Apenas mude o meu nome”, foi tudo o que ela pediu antes de fechar os olhos e puxar minha nuca para sua cabeça e encostar seus finos lábios contra os meus. “Mude meu nome”. Ela já sabia, numa certeza torta que, cedo ou tarde, estaria aqui onde está. Onde seus olhos me leem e me fazem eternos.

Eu não mudei seu nome porque neste tipo de história não há nomes. Nos encontros siderais do infinito, há tenras vidas e intensas sensações.

Todas infinitas, como o infinito tatuado no seu pulso.

“Love”.

.

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O Menino da Pipa

11 Jul
kite
.
O menino da pipa salta no ar
Voa com seus finos e longos braços
Lançados no espaço.
O menino, no sol que vai nervosando
Couros e mentes,
Corre atrás da sua pipa
Na imensidão morta do concreto
Bruto
No estacionamento
Vazio.
.
A cada salto
Voa com ele uma esperança de liberdade.
Uma poesia se faz.
Uma paixão nasce entre duas pessoas.
.
No ar, a estrela dramática
Faz charme, deixando-se levar
Pelo sabor do capricho do vento.
A pipa dribla o menino.
E, ambos, driblam meus olhos.
.
 Ele não se importa.
Dono do tempo, o menino brilha
No amarelo intenso
Da sua roupa – qualquer
Desta tarde – qualquer
E salta quantas vezes quiser.
Ele precisa e não precisa de tanto esforço.
Mas a Pipa, charmosa e elegante,
Totem da beleza pintada no azul do céu límpido,
Boia
Sensual.
.
A pipa é a primeira namorada
Do menino amarelo.
É seu intenso
E verdadeiro
E primeiro
Amor.
.
Ao vê-lo saltar, passando, meus olhos se inundam
De tanta leveza no sorriso largado
No ar.
A imensidão aberta o sustenta com cuidado:
O desavergonhado cuidado que só o amor verdadeiro traz.
.
De dentro do carro
O sopro gelado do ar-condicionado
Ronda meu pescoço como uma coleira
Que me aprisiona e me anexa a este luxuoso cubículo.
O dragão às avessas é um dos meus deuses do conforto,
A quem reverencio e celebro.
Mas o menino, não.
O menino não precisa de nada disso.
Ele se lança ao ar do chão
Que eu já não piso.
Mas para onde posso – com o jeito certo de olhar –
Apenas compreender.
.
Extenuado, paro o carro
E vejo o menino desaparecer
Atrás de sua pipa, de seu sonho,
Atrás de sua vida e de toda a vida
Que ele há de ter pela frente.
.
Eu pego o telefone
– nosso outro Deus –
E ligo para a minha pipa.
Para, do nada,
Narrar a ela do doce
Da cena que eu vi.
.
Ela entende.
Ela sempre entenderá.
Porque seus olhos são meus olhos
.
O menino some,
Mas não está mais sozinho no concreto da vida
O menino também sou eu.
No estacionamento
Vazio.

Putas não mandam cartas

17 Ago

Quando eu enlouqueci
Fui internado no hospital psiquiátrico
Em frente à minha casa.
De lá podia me ver.
Podia enxergar como eu era.
Me via bebendo
Pegando em peitos e bundas.
Fodendo no sofá.
Bebendo.
Chorando e brindando mentirinhas.

Quando enlouqueci e fui internado
Nem precisei mudar meu endereço de correspondência.
Era tão perto.
Mas adiantou nada já que as pessoas com quem eu poderia me comunicar nunca respondem.
Deus é calado
O diabo vem pessoalmente
E putas nunca mandam cartas.

Quando eu enlouqueci
As pessoas que eu mais amo apareciam todo dia.
E toda noite.
Dormiam comigo,
Me acordavam
(andam dizendo que elas não passam de vozes na minha cabeça, mas prefiro não ouvir ‘essas’ vozes que dizem isso)

E era tão perto de onde eu morava que não entendo porque não apareciam lá antes.

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Menage à Trois

10 Dez

Ela tem esse jeito
Meio amalucado
De ser
Tão doido doído,
comportado & canastrão
Que eu paro na estrada
Em frente a um motel
Dois
Pra escrever

Eu paro na estrada pra escrever.

Um jeito menininha.
Jeito de quem fala sem parar
Ela fala. Sem pontuar
Sem. Pontuar.
Emendando astros e assuntos um no outro
Pulando de planeta em planeta
Enchendo-se de vinho.

Eu estou tão feliz.
Minha vida tão mortinha
Me faz tão feliz!

Mortinha e feliz.
Eba!

Ela fica conversando
Seduções
“Maluco”, me acusa.
(E deve ter sorrido)
Ela tem um jeito cabeça-problema
De ser
Que não consigo não olhar
Não me ver pulando em planetas
Também.

Ela tem o cheiro que temo
E gosto.
Ela tem o cheiro de beira de precipício.
Pulverizado.
Entrando na narina.

Ela fala sem parar.
Emendando assuntos sem pontuar
E sua boca tem o gosto
De coisa que nunca provei
Porque nunca provei
Nunca provei
Nunca provei
Nunca
Estou tão feliz!!!!!
Nunca.

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Vício

6 Dez

Você é tão viciante
E quando anda parece que manca
Com suas brancas duas pernas
Finas
Lindas
Mancas?

Você me deixa tão sonolento.

Atravessando a rua de vestido preto
Equilibrando seu corpo-pluma nestes sapatos laranjas de salto
Você toda rosa.

Você, tão viciante
Entrando no carro pra me chupar
Enquanto dirijo entre os becos
Do Setor Sul
Às 10 da manhã.

Eu sou cru
Quase sem nenhum revestimento
Mas você me faz tão covarde e doce
E eu gosto.

Fico tão sonolento.

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Sobre terapias

22 Nov

Vou chegar ao terapeuta e dizer:
Sou bipolar
Só me interesso por mulheres bipolares
Não sei o que quero pra mim.
Mas quero uma solução.

Ele vai sorrir
Me investigar
E juntos não vamos chegar a lugar
Algum.
Nenhum.

Eu vou dizer:
– aí, mermão, me ajuda a tomar uma decisão.
Porque essas malucas estão me consumindo e eu consumindo elas e todas as outras.
Ele vai perguntar
Investigar
Mandar pensar
Eu vou pensar
Como sempre
E não vou chegar a lugar algum

Vou sair de lá querendo uma de duas coisas:
Atropelar crianças
Ou
Chorar vendo resgates na TV.

Descobri recentemente que tudo se resume a uma sensação na vida:
Ter esperança.

Nada existe.
Tudo passa a existir quando a gente
Se deixa envolver com a tal da
Esperança.

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