Menage à Trois

10 Dez

Ela tem esse jeito
Meio amalucado
De ser
Tão doido doído,
comportado & canastrão
Que eu paro na estrada
Em frente a um motel
Dois
Pra escrever

Eu paro na estrada pra escrever.

Um jeito menininha.
Jeito de quem fala sem parar
Ela fala. Sem pontuar
Sem. Pontuar.
Emendando astros e assuntos um no outro
Pulando de planeta em planeta
Enchendo-se de vinho.

Eu estou tão feliz.
Minha vida tão mortinha
Me faz tão feliz!

Mortinha e feliz.
Eba!

Ela fica conversando
Seduções
“Maluco”, me acusa.
(E deve ter sorrido)
Ela tem um jeito cabeça-problema
De ser
Que não consigo não olhar
Não me ver pulando em planetas
Também.

Ela tem o cheiro que temo
E gosto.
Ela tem o cheiro de beira de precipício.
Pulverizado.
Entrando na narina.

Ela fala sem parar.
Emendando assuntos sem pontuar
E sua boca tem o gosto
De coisa que nunca provei
Porque nunca provei
Nunca provei
Nunca provei
Nunca
Estou tão feliz!!!!!
Nunca.

20131210-124110.jpg

Vício

6 Dez

Você é tão viciante
E quando anda parece que manca
Com suas brancas duas pernas
Finas
Lindas
Mancas?

Você me deixa tão sonolento.

Atravessando a rua de vestido preto
Equilibrando seu corpo-pluma nestes sapatos laranjas de salto
Você toda rosa.

Você, tão viciante
Entrando no carro pra me chupar
Enquanto dirijo entre os becos
Do Setor Sul
Às 10 da manhã.

Eu sou cru
Quase sem nenhum revestimento
Mas você me faz tão covarde e doce
E eu gosto.

Fico tão sonolento.

20131206-164951.jpg

Sobre terapias

22 Nov

Vou chegar ao terapeuta e dizer:
Sou bipolar
Só me interesso por mulheres bipolares
Não sei o que quero pra mim.
Mas quero uma solução.

Ele vai sorrir
Me investigar
E juntos não vamos chegar a lugar
Algum.
Nenhum.

Eu vou dizer:
– aí, mermão, me ajuda a tomar uma decisão.
Porque essas malucas estão me consumindo e eu consumindo elas e todas as outras.
Ele vai perguntar
Investigar
Mandar pensar
Eu vou pensar
Como sempre
E não vou chegar a lugar algum

Vou sair de lá querendo uma de duas coisas:
Atropelar crianças
Ou
Chorar vendo resgates na TV.

Descobri recentemente que tudo se resume a uma sensação na vida:
Ter esperança.

Nada existe.
Tudo passa a existir quando a gente
Se deixa envolver com a tal da
Esperança.

Escova de Dentes

13 Nov

20131113-232657.jpg

Foi quando eu passei a usar a sua escova de dentes
Que lembrei do sabor das nossas refeições.
Que deixei-me sentir os pingos quentes e perdidos dos nossos intermináveis banhos.
Foi quando percebi que nossos dias foram eternos. Cada segundo.
Um início e nenhum fim.
Porque cada instante iniciado ecoa até hoje aqui dentro.
Eternos segundos, banhos, refeições.

Foi quando eu passei a usar sua escova de dentes
Que compreendi a verdade de tudo.
E, sim, tudo aquilo era verdade.

Foi quando eu passei a usar a sua escova de dentes
Que comecei a escrever uma poesia por dia
E a pensar quando chegará o dia de reencontrar
Aqueles segundos.
Banhos.
Refeições.

Os loucos

12 Nov

20131112-173834.jpg

Eu estava em casa sem beber
Quando Losam apareceu
Cheio de histórias,
Umas 500 ideias erradas
E uma caixinha daquelas de cerveja

Eu estava sem beber.
Havia feito um pacto com Deus
De não-agressão
E de ficar sem beber por um longo tempo

Losam estava na verdade
De olho nos meus bourbons
E contando todas as histórias
Do que estavam dizendo na rua.

Estava nublando
E eu ja não tinha mulher mais
Nem vontade e me escorria
Um ou outro fio de esperança
Onde – dizem – também escorriam
Suor e cabelos brancos

Losam insistiu em abrir a primeira
Eu tossi seco arranhando a garganta
Caminhei ate o janelão e pude contar cada um dos loucos do hospício em frente
Um, dois, três malucos
Eu imaginando onde errei
Quatro, cinco, seis
Por que fui tão confuso por tanto tempo?
Sete, oito… Dez esquizofrênicos
E eu não entendia porque ter fé depois de ter nascido tão sem fé.

Quando voltei a pensar nessas coisas
Estava no carro do Losam arrastando um monitor pelo chão
E gritando pelo quarteirão:

- Loucos são vocês, loucos são vocês.

Fui dormir com vergonha de Deus
Mas continuava sem mulher
Do outro lado da cama

“Loucos são vocês, loucos são vocês”
20131112-181704.jpg

A primeira vez que me apaixonei

6 Nov

Imagem

A primeira vez que me apaixonei eu não tinha mais que 10, 11 anos
Minha turma de escola foi fazer
Um passeio num hotel-fazenda
Em Teresópolis. 

Ela era morena. 
E explicava como funcionava a fazenda
Da família. 
Ela contava do sino que só era tocado quando alguém morria
E um dia tocaram de brincadeira e ela ficou bastante 
Sentida. 

Foi num paiol em meio ao feno
E ao cheiro de esterco
Que eu me apaixonei
Pela primeira vez. 

Lembro disso porque quando voltei
Não conseguia mergulhar no mar
Toda vez que minha cabeça entrava na água
Eu me desesperava de solidão – gritava debaixo d’água

De puro desespero – e de imensa paixão por ela. 
Só pensava nela a cada mergulho
No mar de Copacabana.

E lembrei disso
Porque hoje quando fui tomar banho
Contra a minha vontade
E molhei a cabeça na água quente do chuveiro 
Me deu desespero e solidão
E eu lembrei de você. 
Quis gritar você. 
O vapor sufocou
E eu só pensava em
Você 

Não pus mais a cabeça lá. 
E sai de casa assim: 
sujo e apaixonado
Pela última vez.

… 

Perdoa

26 Set

Perdoa

Por todas as vezes que eu não lhe compreendi.

Todas que falei quando tinha de calar

porque eu simplesmente tinha de dizer a última coisa.

E agora estamos aqui no sangue do último suspiro.

 

Perdoa

Por todas as vezes que eu não quis lhe compreender,

que inventei de inventar teorias que explicassem o que estava

à minha frente

E eu driblando, driblando, queria apenas não ver.

Agora, nossos corações se driblam, digladiam, entre si.

E somos nós quem não nos vemos

 

Perdoa a flecha que eu lancei no lugar abraço que eu não dei.

 

Perdoa o grito do silêncio uivando na solidão dos seus problemas

e o som do grito quando tudo o que você precisava era de paz.

Eu também preciso de paz.

E preciso de todas as coisas que todo mundo precisa

e das coisas que você também precisa.

E de coisas que só eu e mais ninguém.

 

E, agora, vou continuar: precisando, andando, os pés inchados,

as mãos soltas no bolso da calça.

 

Perdoa.

 

Perdoa o barulho que a minha boca faz

e dá um beijo na cachorra.

E diz pra todo mundo que era tudo verdade.

Porque era até tudo caminhar pro mar do mesmo lugar

 

Vou seguir naquele mesmo andar, sabe?

Vou andar no mesmo passo, sonhando sozinho,

Falando sozinho.

Sozinho, sozinho.

Vou repetir pra mim mesmo todo dia, numa oração bobinha

de bêbado: perdoa.

 

Perdoa aquele brinde que faltou.

Perdoa falar alto os nossos sonhos

Sonhar acordado, mas parado, sempre no mesmo lugar.

Perdoa o medo e a preguiça.

 

Porque agora somos nós quem não nos vemos.

 

Image

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 40 outros seguidores