Gritos Mini-pavor

11 Mar

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Estávamos exaustos.

Eu, com dor na pélvis, massacrada pelas marretadas do seu corpo magro, em cima de mim. Fodíamos por toda a tarde, até perder a graça e o gosto. E então continuávamos. Era como se nos amássemos há anos ou apenas um segundo atrás. Éramos o tempo em si. E ocupávamos todos os espaços.

Deitados…

Eu, tão cheio de pensamentos, me desligava, como se conseguisse descansar de mim mesmo. E estava explicando no mapa do corpo dela como se dividiam as Keys. De Islamorada a Key West, passando Marathon e Key Largo (do Sul até Key Largo, mas deixa isso pra lá). E o quanto ficava perto de Cuba. Toda a região abaixo dos seus seios era o verde e lindo mar do Caribe. Ela soltava gritos-minipavor de cócegas assim que eu me deslizava pelo branco e liso mapa. Eu contava a ela todas as passagens estreitas de uma ilha a outra enquanto deslizava a ponta do meu dedo médio pelas suas costas, atravessando a barriga. Minha digital de calos de cordas, pele de casca, devia mesmo causar uma sensação. Gritinhos-minipavor.

Eu era todo de pele de casca, mas por dentro gemia em devoção porque o dia era lindo, as coisas eram calmas e a morte escura e os olhos fechados estava longe daquele lugar.

Planejávamos em como novamente fugir – aquela tarde já nos era uma fuga do dia, da cidade, do mundo, dos outros, de nossos presentes recentes, passados distantes – e iriamos à Flórida sentir o sol e ela confessava como iria passar seus dias em Orlando, como criança, visitando os parques e os castelos das princesas. “São quantas princesas?”, mas ela não sabia e eu enfiava gelo na taça pra gelar o resto de espumante esquecido do almoço. E enfiava gelo nela, puxando de volta com a boca, língua de anzol, sugando verdades.

E depois: as Florida Keys. De Miami a Key West. Um passeio distante, tão velho e renovado pela minha pélvis doendo. Eu havia sido redescoberto. O mar do Caribe estava calmo naquele instante, sem rastros de piratas ou guardiões da escuridão e os peitos dela fazendo sombra a quase todas as ilhas, principalmente, à República Dominicana e as Bahamas. Enquanto eu soluçava por dentro de emoção, a dor na pélvis, aquilo tudo sendo muito engraçado e poético, como os passes de mágica são. E de repente eu retornava com meu dedo à ilha anterior por haver esquecido a sequência correta de nomes por onde passaríamos. E meus dedos éramos nós, seu corpo a doce estrada e aquele caminho era o caminho a ser nosso. Porque a vida era a ser nossa. Ela se segurava para não se contorcer. Era uma tarde suspensa na linha do tempo, que talvez nem tivesse existido. Como nos dias bons que colecionamos pela existência e que lembramos com tanto carinho que podemos jurar que nunca aconteceram. E talvez nem tenham, uma vez que não voltam. Ali, presenciávamos história e mágica.

“Mas se você quiser conhecer a Costa Oeste, a Califórnia…”, e escorri minha mão até a volta das suas pernas lentamente, aí sim, fazendo-a se dobrar por completo de cócegas e agonia.

Mais cedo, eu bebia enquanto, logo após o almoço, ela narrava pequenos e leves dramas cotidianos. Eu tinha minha acidez perdida, eu vinha de outro lugar da vida bem distante daquela realidade, talvez de qualquer realidade que envolva dramas cotidianos. Eu era uma ilusão de mim mesmo e para mim mesmo. E me encerrava enganando os outros de que eu existia. Eu estava com nojinho da minha seleta paciência e – mais – interesse naquilo tudo. As pernas cruzadas e a estranha sensação de que aquela fofoquinha me pertencia, muito embora eu tivesse acabado de chegar naquela vida. As pernas finas delas se apoiavam na planta do pé no assento da cadeira de tal forma que me abstraí do relato sobre escolas de criança, professoras relapsas, mensalidades caras e folhas de papel A4, para só pensar em como estaria a buceta dela naquele momento, naquela dobra de perna apertada. Eu só pensava em bucetas e em tarde de pileque.

Aí, fui escorregando, descendo por debaixo da mesa e explicando o que eu precisava fazer. Ela não se mexeu, entre o susto e a felicidade, “não me olha com essa cara”, já que ela me abraçava com um olhar de quem não conseguia evitar com que as palavras escorressem, molhadas e pastosas de açúcar, de seus olhos. E foi o que eu disse. “As palavras escorrem dos seus olhos”. E ela não respondeu. Era uma curva escura e familiar a das suas pernas por onde eu havia acabado de sair, meus olhos arderam um pouco quando lhe beijei no final da coxa, inspirando o “seu cheiro nosso” de instantes passados. E voltei à mesa, à conversa, ao esporro na professora relapsa.

A parte mais hedonista do corpo é a boca.

Não parávamos de nos querer, de nos alimentar do outro, roubando fluidos, gostos e devolvendo a vontade de saciar, de olhar como nossos esforços transfiguravam o rosto do outro em prazer, expressões profundas de contato com a alma e o gozo. Éramos um xamã do prazer alheio e, no tato pela escuridão de quem não precisa ver com olhos, descobríamos lugares escondidos.

“Hoje tem novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e eu vou”. O assunto surgiu do mesmo lugar onde saímos nós dois até aquele encontro inexplicável. Eu, há anos era sujo e gasto demais para ela. Ela era frágil e com o encaixe natural demais pra mim. De resto éramos desconhecidos, estranhos – o quanto seriamos opostos? e o quanto estaríamos envolvidos, amarrados pela dura-mater? – e nos enlaçávamos naquela cama numa tarde escondida como dois amantes conectados. Xamânicos um do outro. “Mas você está com sono, como vai em reza com sono, vai é dormir”. Claro que não, ela me disse. Até porque a Santa não dorme e sempre olha por todos nós, disse, e ela precisava pedir que a santa nos protegesse e blá blá blá de Deus, Jesus (foda-se, Jesus, ela disse, blasfemando sem ver e depois pedindo desculpas e emendando a explicação de como era confessar-se ao padre, mas isto eu vou lembrar depois) e tudo mais aquilo.

“Como a Santa não dorme? É um zumbi? Uma santa comedora de cérebros”, eu perguntei para, no instante seguinte, avançar em cima dela pegando sua cabeça pequena com minhas duas mãos e trazendo à minha boca nada zumbi de comedor de cérebros. “Eu sou Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e eu como cérebros”.

“Preciso gozar de novo”, eu disse. Era a ideia de sempre: foder até perder o gosto. E nos fodemos novamente com a intensidade de apaixonados, selvagens desconhecidos. As conversas entre pessoas apaixonadas não tem compromisso com o sentido. E foi uma conversa de horas.

“Você gosta de mim?” – ela perguntou pontuando toda a tarde numa indagação que ela precisava muito da resposta. Eu me calei, disse que não fazia sentido me perguntar aquilo, que ela descobrisse. Mas ouvi alguém dentro de mim dizer “baby, se nossa vida for uma repetência de tudo que acontece nesta tarde, eu passo a minha vida com você”. Na minha cabeça ela sorria, sem controle. Sorria bobamente como alguém que pensa que é possível ser plenamente feliz ao longo de uma existência.

E era como se quase nos amássemos.

Quando saímos, já era o fim da tarde, chovia, e uma música nos fez olhar um pro outro e sorrir.

E depois gargalhar. Porque compreendíamos o que estava acontecendo naquele singular momento do tempo, ainda que nós fossemos o tempo.

Eu tinha em mim todos os nossos gostos presentes no corpo dela. Soltei gritos-minipavor, mas ela não ouviu porque o som da vida que acabávamos de construir estava alta demais.

O Gato

4 Mar

Gato - Vernon

(ilustração de Fellipe Vernon – @fvernon)

 

O gato sujo mora no edifício do meu prédio velho desmanchando no tempo

O vira lata se lambe enquanto eu entro no carro e penso que 1. não tenho pra

onde ir 2. tenho sono 3. não tenho muita saída pros meus problemas

Eu vejo o gato esticado na terra,

no cantinho de terra abandonada do parque

das crianças.

É um cenário morto, sombrio de silencio, os brinquedos pintados de branco e

minhas pálpebras pesam de sono e de reflexo

do sol no branco mal pintado e

velho do parque

O gato se lambe.

O gato pula em cima dos carros e tudo de repente é nada.

Pulável, estável, tudo é acaso e circunstancia pro gato que mora no subsolo.

Eu fecho os olhos dentro do carro mas nao consigo dormir.

Não durmo há dias.

O gato muda de posição e se estica ainda mais na terra imunda.

Eu me encolho no banco de couro fugindo dos meus mais graves problemas.

Escondendo do Oficial de Justiça,

correndo pra esconder o pouco dinheiro que me resta.

Tomo dois banhos por dia.

O gato some da minha vista e reaparece minutos depois em cima de um carro

pequeno.

Soberano.

Impávido.

Calmo e bobo.

Eu me imagino deitado na terra suja em que as crianças já não pisam mais.

Tolas trancadas nos quartos com tanto sol. O sol do gato.

Eu me estico e sinto o ar faltando nos pulmões como quando nos

espreguiçamos pra valer.

Eu me lambo.

Meu gosto é Salgado

É uma merda

Eu fecho os olhos, mas não consigo dormir.

‘Entre o inseto e o inseticida’

13 Dez

Ela andava. Não, ela vagava flanando sem direção, uma ginga discreta, mas presente. Ela andava pelas ruas, entre a ressaca e o altiplano do desconcerto da moleza do uísque, vinho, cerveja, qualquer nota. A cabeça doía, mas e daí?, o mundo era uma dorzinha guardada pro fim do dia. Mas, e daí? Ela branca, meio marrom, cheia de ginga, um longo som atravessado de cordas, um lance de preto, black-exploitation-avenida-paulista, nada a ver, tudo mentira.
Ela flutuava, corpo chaveirinho, o cheiro das suas pernas arrombando as narinas deles e delas. Coisa que humano não vai entender. Ela ria, erguia copos, inflava corpos, apontava, chamava, possuía, era possuída, dormia, pedia pra ir embora antes da manhã seguinte. Quem poderia com isso? O jeito dela de sorrir era ofensa à tristeza, à efemeridade da vida, aos dilemas sociais, do espirito, da fé nos tempos de hoje, e até a Jesus, Iemanjá, Alá, meu Deus.

Fazia uns lances aqui e ali. Escrevia, comandava, enrolava, conhecia todo mundo. E dai o que fazia, se a mágica daquele corpo, corpinho, gente, (era um corpinho), era mais? Tudo era mais. E ninguém sabia o que ela queria. Queria amar? Ser amada? Ela queria uma casa cheia de riquezas e filhos? Um bom grisalho ao seu lado? As ruas duas da frente e do fundo, os limites da sua propriedade. Alguém poderia dizer que era isto que queria?

Não, não era.

Mas havia um quê – e sempre há um quê nas grandes e boas histórias e nas boas mulheres – de pergunta sem resposta. De um mistério bobo, coisa que humano não sabe responder, de um troço que falta, de uma vontade assombreada, um negócio entre o sorriso e o gole, a roupa e a chupada, o zíper e a gozada. Havia, é claro, um troço.

Tinha uma pausa naquela ginga, naquele lance. Ela era um lance. Homens e mulheres, curtindo aquilo tudo, lambendo, venerando. Os caras se cutucando no bar, ela chegando na sua bicicleta, saindo bêbada, acenando adeus, até amanhã, quem não queria ser aquela bicicleta, o capacetinho feio segurando as ideias e o cabelo.

Mas tinha um quê.

Saía com todos eles, os que valiam a pena por alguma razão. E com alguns que, por erro, ela se confundia. Mas e daí?, era só hoje, no máximo até amanhã de manhã quando eles iam embora e a vida seguia. A vida é leve até mesmo quando um tanque de guerra dá ré na nossa nuca, mas pra ver deus tem que morrer, essas coisas, todas as coisas. Ressaca boba, era só rebater, um isotônico, um negocinho, comprimidinho, chocolate, a amiga liga: hoje tem.

E as meninas? As meninas, tímidas, gostavam dela. Gostavam do jeito que ela acendia o cigarro, da forma como suas pernas tesas, não grossas, rachavam o chão do bar no balé até o balcão. Troço bobo, mas elas gostavam dessa poesia. Coisa que humano não entende.

Elas queriam ser ela. Queriam sorver o sabor quentinho das suas pernas talvez nem por prazer, mas quem sabe como um bálsamo revelador daquele segredo por tanto charme, tanta riqueza na simplicidade dos movimentos de menina. Era, isso aí, era menina. Uma menina muito linda.

Como eu sei? Como eu saberia se não fosse o velho atirador, o pistoleiro cansado, o bobo do canto do bar. Todo dia olhando, mirando, escrevendo no guardanapo, suando os cotovelos e debaixo do braço, secando a testa com o verso feito. Eu era o narrador da tragédia diária de todos, o guardião das vontades mais encobertas. Eu, no espelho, sentia pena de mim, mas muito mais deles e delas, em busca do foco naqueles olhos de rasgar biografia, de mastigar esperança, olhos de quem tem fome.

Ninguém sabia de onde vinha, mas quando ela vinha era acontecimento. E um dia chegou a minha vez. Eu sequei o suor da testa com meia dúzia de rimas infantis.

– Deixa eu ver.

– Ver o que? – eu respondi sendo mais bobo que a resposta.

– Deixa eu ver o que você escreve, você me olha, escreve, joga fora, guarda… deixa eu ler aí, cara…

– Ah, não é nada não… Quer uma do… – ela me cortou com a mais doce forma de interromper alguém. Era o meu coração de manteiga Aviação vitimada pela beleza espada samurai dela. Na comparação desse momento lembrei do meu amigo Pedro. Sei lá porque.

– Que isso, uísque? Com o quê?

– Água. Jack Daniels com água.

– E fica bom? – ela deu uma longa golada no meu copo para depois soltar um “ahhhh” de propaganda de escova de dente. Os dentes brancos rasgaram a veia cava da noite

Eu sorri e guardei o papel suado com frase qualquer, rima mal feita, talvez nem terminada. Eu não sabia, mas era a minha vez de responder àquela interrogação. Minha narina ardia da neblina ácida que vinha do meio das pernas dela. Ela me tomou o papel, molhado, úmido de mim, leu, sorriu e guardou com ela. Deu outro gole e largou meu copo vazio. E depois me olhou.

No som do bar, rodava Eclipse Oculto. Acompanhei com o pé o ritmo, puro nervoso.

Ela mexeu os lábios de um jeito miudinho, como quem não canta pra ninguém: “Tipo de amor que não pode dar certo na luz da manhã…”. Eu fiz as contas na minha carteira. Dava pra mais uma água e mais um Jack. Os últimos.

Ventava lá fora, mas dentro do bar o ar estava suspenso.

Não eram nem dez da noite, ainda.

Carranco, o animal inédito

6 Dez

Era segunda de manhã e o meu primeiro emprego em muito tempo. Uma porra de uma ressaca chegando, expulsando a perturbação do álcool gasto no corpo em forma de suor. E eu tenso, agitado. Estava esperando por uma reunião, na sala ao lado do meu chefe, meu novo chefe. E este cheiro de álcool no suor, com certeza, claro que tem, claro que tem. E quanto mais eu pensava no suor, mais suava, mais imaginava o cheiro de barril de carvalho. Eu esperando por uma reunião, a primeira, depois de muito tempo. Muito plástico, tudo muito plástico, muito branco e cinza. As coisas do mundo são brancas e cinzas. E cheiram a bonecas e látex. O mundo, essa grande camisinha na cabeça de uma Barbie, mas que porra, esse cheiro.

Para dar um tempo, comecei a andar. De um canto a outro na sala, fazendo um ‘L’. Lá e cá, ritmado, de alguma forma o vento do meu passo-a-passo poderia secar o meu suor. Muito poético o plástico dos moveis planejados. De alguma forma, poético pra caramba, puxei o ar com força, como se inalasse vida, cheiro de coisa nova, “olha só, que beleza”. Mas o cheiro não me fez bem, muito agitado, meus pulmões carentes receberam uma carga química excessiva, tonteei. Calma, calma, porra. Parei de andar uns segundos, me apoiei numa cadeira muito linda, muito linda você, cadeira. Obrigado. Esperei o ar podre e cheiroso do plástico correr das minhas narinas e me aprumei. Ah, ressaca.

Andando, andando de um lado pro outro, sou um animal enjaulado, baby, eu sou a grande fera temida, baby, sou o acontecimento do zoológico da vida, venha me descobrir, venha tentar me foder. Do jeito que você quiser, estou pronto pra vocês todos, canalhas. Suas mulheres falam que têm nojo de mim, mas me desejam e vocês me temem. Não conseguiriam nunca me foder, veja como estou agitado nesta jaula especial de plástico e modernidades que vocês me puseram. Sou imundo, sujo e enjaulado. Veja, toque em mim em pensamento, sinta como sou sexy assim suado e exalando este cheiro que lhe convence mais que todo o dinheiro que não deu pra eu ter pra lhe impressionar. Sou sexy, cara, sou um lutador suado no canto do ringue, sempre pronto, ligadinho, ligadinho. Você mexe comigo, eu não sei o que faço, sou assim, este animal, esta novidade quente. Você não pode, baby, você não pode.

Dou um soco no ar. Depois, outro. Sem parar de me mover, não posso perder o ritmo. Assim, vou ganhando confiança. O chefe na sala ao lado não perde por esperar. Sim, sim, ele vai ver a máquina que agora tem ao seu lado, trabalhando do lado dele. Não tem como ele não se sentir mais seguro, mais calmo e certo de que tudo vai ser nosso, grande time, grande turma. Começo uma sequência imaginária no inimigo da vida, o inimigo da empresa, porra, claro, jab, direto, cruzado. Jab, direto, esquiva, cruzado. Como eu sou rápido, baby. Eu sou Mike Tyson mordendo a orelha da sua mãe. E ela gosta, cara, ela gosta da minha dentada, nhac. NHAC.

O telefone apita, treme no bolso. Não, não posso atender você agora, estou expulsando minhas fraquezas, gingando na jaula branca e cinza, agitado, animal inédito. Estou respirando fundo, agora. Nem mesmo a nuvem de plástico pode comprometer minha respiração agora. Eu venci o invisível cheiro da química. Minha jaula branca, transada, moderna, lindas cadeiras, obrigado, cadeira. Recomeço a suar, agora com intensidade, expulsando demônios, mas não posso parar, não posso. Estou lidando com coisas grandes demais aqui para duas ou três gotas me fazerem desistir. Esquiva, esquiva, vocês todos vão ver. É o meu retorno. O Retorno do Animal Inédito.

Fim do round. Apenas andando. Andando, o ar entra em você e se espalha com mais facilidade pelo corpo, recobrando o oxigênio nos músculos com mais rapidez. Sei de tudo, cara, conheço o jogo. Andando, andando, descobrindo espaços, vendo detalhes. Como são lindos os traços plásticos dessas curvas, novos móveis. Os grandes caras devem comer mulheres aqui, empurrando a bunda delas contra essas curvas macias. Os caras que projetam e constroem isto aqui certamente transando no projeto, pra saber se vai machucar o rabo branco de alguma secretária, assistente, estagiária. Tudo bem pensado, é isso que os grandes caras fazem: pensam em tudo antes. E agem. Planejam os movimentos com cuidados, mas não perdem tempo. Agem com agilidade, como gatos, tigres, panteras. Mas eles não são o Animal Inédito. Só o Animal Inédito distribui esses golpes, parecendo que são dois animais, mas é apenas um, só que rápido demais. Jab, Direto.

Olho pro céu, o céu mudou, cara. O céu é outro, meus olhos enxergam o brilho forte do sol das nove da manhã e estes raios do Oeste não me incomodam, claro que não. Estalo os ossos do pescoço, é a minha senha, é a minha deixa, o passeio vai recomeçar.

Estou suado. As costas estão coladas na camisa numa cola de água, cheiro de carvalho e meus poros funcionam como ventosas no algodão gasto e preto da minha camisa, meu manto. Eu uso um manto, baby. Você pode acreditar. Tomaria agora, facilmente, uma mistura mágica e mística de Laranja com Rum. E gelo. Porque o gelo é a ventosa de todo drink decente. Vou caminhando, observando as coisas, detalhes. Onde mais dá pra se foder bem uma estagiária, assistente, secretaria. Quem sabe foder até mesmo a chefe, porra, foder uma fodona. Dou risada, bom jogo de palavras, “ei, você é fodona, mas aqui quem fode sou eu, baby… EU… entende?”. Ela entende, claro. E não se importa, os moveis são planejados pra acoplar a bunda dela e jamais escapar uma farpa, nada disso. Tudo bem pensado, os grandes caras sabem como agir.

Na minha frente vejo uma porta sanfonada de plástico. Não de correr, não é de abrir, é sanfonada, é de encolher e esticar. Tudo muito genial e poético. A jaula desta fera agitada não poderia ser algo comum, tem mesmo de ser assim, diferenciada. É isso aí: diferenciada. A porta sanfonada encolhida no canto direto do batente é do tamanho do meu pau duro. Não se pode ter tudo, porra. Meço e sei como é, meço usando as mãos. Usando uma mão, na verdade, estico o dedo e sinto a porta sanfonada, genial e poética, roçando a lateral do meu dedo indicador. Grande sensação, baby, só penso em sacanagem, só penso em sexo. O telefone toca de novo, mensagem, não posso agora – será que vocês não veem? – estou descansando, estou revigorando…

Toca de novo, porra, e de novo. Aquelas mensagens curtas, as pessoas não mandam mais mensagens de celular de uma vez, elas repartem tudo, inventaram a gagueira por SMS. Grande onda, grande porta sanfonada essa, do tamanho do meu pauzão.

Estalo de novo os ossos do pescoço, jogando a cabeça pra trás com força e começo a pular pra reaquecer. É preciso avisar ao corpo que o sangue tem de se agitar, correr mais forte, mais intenso, levando tudo o que meus proeminentes músculos da perna precisam. Meu jogo de pernas, olha pra isso aqui, olha de verdade, um dançarino no ringue da vida, pronto pro seu grande retorno. Meu sangue vai correr forte, rasgando as veias, não diminuindo em nenhuma curva arterial, vai passar, subir, descer, trocar de enzimas, substâncias, oxigênio, hidrogênio, tudo mais, descendo até a panturrilha e lá as duas bolotas enormes vão bombear de volta o sangue pro coração, uma união perfeita, uma orquestra de massas, músculos e órgãos. Eles sabem o que estão fazendo, um grande trabalho, planejam e agem, eles cuidam do Animal Inédito.

Pulando, pulando, ponta dos pés, abrindo a garganta pro ar entrar e ir direto pras canelas e voltar. Alternando um pé e outro, um pé e outro, pra fortalecer a musculatura, agora, no segundo round, pode ser a hora da definição, pode tudo mudar, pode ser decisivo. A porta de se abre, que susto, porra, que susto. Entra a secretária, 45 anos, cabelo ralo, acima do peso, bunda caída pros lados e dois peitões bastante gostosos. Salva pelo peito. Eu me assusto, ela também dá um salto, estou molhado, completamente tomado de energia e suor. Ela entra na jaula de um animal grande e bruto, desconhecido, sem padrão de comportamento selvagem, ela se espanta porque cometeu um grande erro, grande erro, baby, entrar aqui assim, destemida, imprudente. Pode sobrar pra você, a gente sabe disso.

– Só mais cinco minutos e você é o próximo a ser atendido – ela diz bem lentamente pra que a frase leve o tempo necessário pra que ela descubra o que estou fazendo e o que está acontecendo aqui nesta sala.

Mas ela não sabe, ela não pode saber, ela não conhece essa minha ginga, essa minha disposição, ela não entende como um homem pode ter tanta energia junta, dá pra ligar umas três Itaipus em mim, baby, eu acendo toda a sua casa em segundos, sua bunda velha em cima desse móvel, ia ficar ótimo. Mas ela sai, antes de perceber isso tudo, azar o dela, não é todo mundo que consegue ver algo grande quando realmente vê algo assim. Mais um jab, outro direto, esquiva, esquiva, outro jab, esquiva, sinto uma dor no tornozelo, muito peso mal distribuído, cara, um grande cara que planeja e age, não pode errar as contas nesta máquina incrível. O telefone apita novamente.

Há oito mensagens no celular, começo a ver gordas gotas de suor marcando meu círculo no chão, estou derretendo minha carne e minha gordura em pura energia. Oito mensagens. Estou encharcado, os grandes caras são assim, não medem esforços, baby… as mensagens são de Denise, minha ex-atual-alguma-coisa-de-sempre. Às vezes sou casado com ela, às vezes durmo na casa dela, como a comida dela, às vezes sumo, Denise cuida de mim. Atualmente é Denise quem me emprestou uma grana. Grande gata legal, a Denise. Mas ela sabe que na verdade ela faz um investimento, ela enxerga o Animal Inédito em ação, ela sabe que este retorno vai ser bom pra todos, eu sou o Sol, e ilumino a tudo à minha volta, essa massa de planejar e agir e comer mulheres entre uma missão e outra em cima do plástico poético e genial. As oito mensagens de Denise reunidas em um só texto davam isso aqui:

“Vem um cara aqui pra minha casa. Chega sábado de manhã. Conheci pela internet, mas é muito gente boa. É um cara por quem me apaixonaria facilmente. Mas não vai rolar, ele tá se divorciando e a mulher tá sendo uma puta com ele. Fico com dó. Não venha pra cá. Ele chega sábado, vamos tomar uma cerveja, transar e praticamente isso. Na segunda a gente se fala, mas me liga antes de aparecer. Se cuida”.

Porra, que puta.

Respiro fundo, solto o ar e uma dor fina na nuca, como uma agulha entrando na parte de trás da cabeça, começa e vai crescendo, crescendo. Cacete, puta ressaca, mas que puta. É sexta-feira, não é dia de se começar nada sexta-feira. Estou numa grande ressaca, todo suado, olha só pra mim, que merda, todo suado desse jeito, que escroto. A cabeça dói, acho que torci o tornozelo, ele parece inchado, querendo pular pra fora do sapato, grande merda. É uma grande merda fodida essa Denise. Estou suado e agora nem posso ir lá na casa dela mudar de roupa.

Passo pela mesa da secretária velha e os peitos dela saltam do decote. Sexta-feira é dia dela ser fodida entre 11h15 e 11h25, por isso veio de saia. Saio pela porta imensa de vidro sem dizer nada. Que se foda, sexta-feira não é dia de começar nada grande, nada importante, nada que possa fazer a diferença. Ninguém que trabalha num escritório cheio de plástico pode fazer a diferença. O sol bate na minha roupa, o vento gela minhas costas e perco o ritmo da respiração. No meio da escada, tonteio e vomito. A garganta arde, merda, mas que porra de troço ácido. Rum com laranja. Quatro partes de Rum, quatro de laranja. Rum com laranja, esta mistura se chama Carranco…

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Jantares

3 Dez

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Jantávamos.

Na realidade, ela comia – e comia muito bem, com disposição e prazer pelo prato, coisa rara e bela de se ver em mulheres bonitas. Normalmente, somente as feias comem com avidez, o que as torna deselegantes, digo mais deselegantes do que o próprio fato de serem feias. Mulheres bonitas transformam fome em ato selvagem, transformam qualquer bobagem em sensualidade. Puro clichê, pura verdade repetida. E outro clichê é: ninguém gosta de mulheres feias. Não como mulheres, como humanos mesmo: ninguém quer estar perto de mulheres feias. A vida tem verdades inexoráveis.

Mas não era o caso dela. Ela comia com a serena fúria de quem gosta de comer e sabe que vai até o fim. E só ela comia, eu olhava. Era um tempo em que novamente eu andava de mal com a comida e com muitas coisas. No máximo, bebia. Mas, ali, nem isso. Água. Era eu, água e a minha visão daqueles dois olhos.

Ela parecia um bicho. Não, selvagem, mas silvestre. Tinha um olhar não-humano, encalacrado num rosto fino, elegante, de traços cuidadosos, a pele escorrida como um manto sobre um corpo sagrado. E era isto: um corpo Inca, Maia, Asteca, Santo, Puro e Limpo. Limpo demais. E aqueles olhos nem tão selvagens, mas silvestres. E eu encarava aquele animal novo, a recém-descoberta diante dos meus olhos calejados e tortos, o milagre da natureza sendo desembaraçado à minha frente. Era muita sorte.

Mas eu tinha competência com a Mãe Natureza. Ao contrário de todos os deuses de todas as crenças, a Natureza recompensava com senso direto de justiça e reconhecimento. E eu era, perante a brutal ação natural da vida, digno de prêmios e agrados. E ela me confessou, com um riso entre a vergonha e a timidez, que já tinha saído com garotas.

– Não é engraçado?

Não, não era. Era uma delícia, outro clichê, imaginar aquilo, mas era um desperdício. Outra mulher, independente de como fosse, tomando posse daquela divindade marrom inca-maia-asteca. Mirei nos lábios e no movimento sincronizado que fazia para falar, sorrir, mastigar: franzindo, abrindo, contorcendo, esticando. Não eram lábios para tocar numa buceta. Pela primeira vez, ó obra da Mãe Natureza, eu me enojava da ideia de uma linda mulher chupando outra e tudo mais. Aqueles olhos não mereciam a qualquer mulher. Mulheres são confusas, trazem problema e indecisão, mulheres manipulam e mentem, mulheres mudam de ideia, desistem, são medrosas. Aqueles olhos não tão selvagem, mas silvestres, não mereciam mirar direto no espelho da confusão. Aquele animal novo, desconhecido e belo, merecia um dono à altura da sua aparição.

E era por isto que eu estava ali, todo de preto, solene e blasé como um dos irmãos Gallagher. Para representar o que a Natureza dos Encontros Cósmicos e Perfeitos esperava de um homem na minha mesma posição. Por dentro, uma ebulição de sensações. Milhares de glândulas ejaculavam nos meus músculos, órgãos, cavidades, mucosas. Por fora, uma explicação aqui, um sorriso ali. E só.

Era a minha vez de merecer um encontro com o supremo transcendental da Mãe Natureza.

Eu, tão sujo, encardido e viciado pela ação repetitiva do tempo. Eu, tão mordido, amado, odiado, confuso, bruto.

Eu, tão sujo de cheiros, pelos, salivas, embrulhado em lençóis coloridos, manchados de porra, jorros femininos, lágrimas, tantas outras sombras de mulheres, casos, amores, nada que ficou…

Eu, feio e certo, prestes a respirar o ar daquele universo marrom, as dobras de cheiro incomparável daquele corpo inca-maia-asteca. No instante perfeito do hiato que me separa da tinta fresca daquela alma, daquela recém-acabada, o ensaio mais que perfeito ainda ecoando o último acorde.

Ela era o instrumento afinado, reluzente e as minhas mãos eram as minhas mãos que já tocaram coisas podres, lindas, maravilhosas, sagradas, mas que nada conseguiram segurar, sangrando esperanças por entre as falanges, a sombra do cheiro das outras guardadas nos sulcos dos dedos. Eu, a minha mão parada no tempo, avançando naquele corpo delgado.

A vontade era partir-lhe ao meio, abri-la como uma fruta de casca delicada, cuja resistência não supera a força da libido das mãos famintas, sulcos marcados. Eu, a mão faminta da fome de algo novo, eterno, nem selvagem, talvez silvestre. Eu, prestes a conquistar o grande prêmio da Mãe Natureza.

– Não, obrigada, eu não bebo. Vinho só em ocasiões especiais. Não gosto de me sentir embriagada.

E no meio daquele desejo de dilacerar algo belo e perfeito, aquele corpo com o cheiro das nuvens, esperava encontrar o Amor. O Amor perfeito, para sempre, o Amor intenso, a dádiva. Que dentro daquela casca fina e frágil houvesse o segredo, a palavra certa. Houvesse o romance que tanto debatíamos e buscávamos. Ela, menina, sóbria e com passagens por bucetas cheirosas, eu, velho, solto, incerto, um sucesso no meio do caminho, um fracasso na gangorra, bêbado e bobo, mas com o conhecimento de mil gerações e o afago da Mãe Natureza para ter sempre o gesto certo. Eu, destravando mil portas apenas com o olhar vermelho.

Eu, diante daquele olhar de bicho, animal de nova espécie, uma criança perfeitamente linda, esperando apenas o meu comando preciso para destravar o jardim das relíquias.

Dei um longo gole na água e recomecei a falar sobre o Amor.

O bicho esticou seus olhos nem selvagens e nem silvestres sobre mim.

E aquela noite, sabíamos, ia durar meses.

maça

O vão

12 Nov

Não havia vão.

O meu desejo por ela, sujo como era, funcionava como uma massa densa como uma tubulação que se perde pelo horizonte, no aço fundido gelado escorregava na viscosidade da gordura e da sujeirada da minha vontade pura, intacta, por ela. Não havia espaço para segundo pensamento, não havia vão.

Havia o vão das pernas dela na contraluz. Havia o cheiro do sexo dela. Ácido, estático na minha narina, me inchando, ardendo os olhos. O vão, casa das gotas pingando e escorrendo por dentro das coxas. Havia o sol artificial da contraluz do quarto no vão dela. Havia o vão.

Eu a apertava. Com força, sem jeito. Apertava com fúria. Não queria só foder seu corpo, queria violentá-la, engoli-la, manchar as minhas mãos com todos os líquidos que ela pudesse verter. Passar a minha língua por cada vírgula do seu pescoço, aditivar minha sina de ser uma besta com os fluidos mais intensos do seu corpo. Todas as suas águas. Colocar seu corpo dentro do meu.

O meu dedo tripudiava pela sua cervical, uma montanha-russa muito branca, muito escura, muito estranha, muito viva. O desejo continuado turvando os detalhes, era um animal, era um animal. O meu dedo grosso escorria e entrava na sua bunda, uma massa intensa de carne quente oprimindo minha falange. Ela gostava de ser surpreendida, de ser atacada por todos os lados, misteriosamente penetrada. Ela gostava da fúria grave que resplandecia de dentro de mim, das minhas janelas abertas, do fogo que era o meu pau raspando pela barriga dela.

Ela gemia com culpa. Com a doce e inefável culpa de quem não vai esquecer aquela memorável loucura.

Fui entrando nela. E ela em mim como se me mordesse, absorvesse, como se sua carne quente de menina ganhasse fôlego, cor e força a cada instante em que eu era espremido por suas carnes, era uma mucosa por demais rosa, por demais quente, loucurada, ela apertando a minha nuca, por demais quente, por demais mínima. Seus pés envoltos em botas grandes, roçando nas minhas costelas, enormes laterais protegendo suas canelas, o cheiro de couro misturado com o cheiro da boceta, com o cheiro do erro, com o cheiro da minha vontade em errar no corpo dela. Ela, de botas. Ela, pequena, encurvada na pia, ela em pé, suas pernas em mim, ela tocando a ponta da bota na minha virilha, ela tocando minhas dúvidas.

Eu não queria, mas veio. Ela era tão menina. Veio e veio com força, um vento frio por cima das minhas costas, além das minhas contas, me curvando, a minha língua batendo no ponto quente da sua dobradiça escura, subi e desci, montei, revirei, eu, sujo demais, eu, velho demais, eu, pelos grossos explodindo por toda a pele demais, eu, totalmente místico numa cena degradante, em cima dela tão perfeita, do lado dela, tão perfeita, empurrando meu cilindro de sangue dolorido com tanta vontade que era eu, o profeta, quem merecia morar nela, baleia. Balela.

Ela gemia baixinho, com dor sem doer. Ela gemia com culpa.

Tirei, fui atrás.

“Aí?”. Sim, aqui. Ela queria.

“Não, aí não”. Eu atrás, ela, aquela peça de carne inteira, recente.

Ela queria. Aí. Eu queria.

Não havia vão

Empurrei. Veio o gemido engasgado, um susto na bunda que não passou pela garganta, ela queria a surpresa. Era tão menina. Lá.

Havia o vão.

A palavra-fim

12 Mar

Foi num tempo de coisas frenéticas. De fricções, gestos rápidos, maxilares distendidos por milhares de gritos, sussurros e desejos. Carnes rompidas em espasmos de todo tipo. De carnes queimadas, quentes, rotas, ásperas, macias, de todos as matizes, sub-cores se passando umas nas outras. Foram os tempos de ausência de pecado.

E de perdão.

Um tempo em que a esta hora da manhã, ainda estariam presos nas paredes os últimos gritos, uivos delirantes, o prazer físico, químico, sincero e industrial. O prazer como último refúgio. O sol iluminando a crosta de gozo escorrida, seca, no pé da cama. Os suplícios, as nódoas verdes em pescoços, virilhas, pernas, os pedidos. “Mais forte, mais, mais…”. O estampido surdo de mãos estaladas em carnes brancas.

Foi num tempo de sentimentos dilacerantes, de voltas e voltas, idas e vindas sem sair do lugar, sem deixar a cabeça doer, a agonia do derradeiro rasante. Mas tudo mentira: depois vinha outro e mais outro. Foi o tempo da quebra das promessas e, depois, do fim dos acordos e acertos. E, ainda, depois: o fim da palavra como item conector de pessoas e pensamentos. A palavra vencida rompia as estruturas convencionais das relações. A linguagem dos corpos e dos movimentos despropositados-instintivos gritava e bradava rimas sem um único som. O músculo contraído do rosto ou do abdome era mais universal que qualquer verso, versículo, conselho.

Naqueles dias, amanhecer era o simples ato de abrir os olhos e observar o que restou do mundo. Éramos dinossauros enormes, lentos, os olhos fundos, as marcas da vida selvagem em nossos couros, os riscos em nossas dobras, o salto azul de nossas veias em último suplício. Aspire, expire, solte, solte. Éramos criaturas bizarras, gigantes, esperando pela caça, pela próxima lua. E reinávamos em quase total prostração, um arrepio aqui e ali, mas acordávamos recolhidos pela ausência de água no corpo, de preocupações e responsabilidades na mente. Pela ausência de alma.

E hoje, o pecado nos invadiu. Tomou-nos o corpo inteiro como um grande cobertor molhando, pesando, incomodando. Está frio, a água está morna, e nossos corpos há muito descobertos já se cansaram de tamanha ofensa da vida.

A vida nos mata e é sabermos bem pessoalmente da grandiosidade desta certeza que corremos, feito animais covardes, para o esconderijo mais próximo.

E pela ausência de alma.

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