Estávamos exaustos.
Eu, com dor na pélvis, massacrada pelas marretadas do seu corpo magro, em cima de mim. Fodíamos por toda a tarde, até perder a graça e o gosto. E então continuávamos. Era como se nos amássemos há anos ou apenas um segundo atrás. Éramos o tempo em si. E ocupávamos todos os espaços.
Deitados…
Eu, tão cheio de pensamentos, me desligava, como se conseguisse descansar de mim mesmo. E estava explicando no mapa do corpo dela como se dividiam as Keys. De Islamorada a Key West, passando Marathon e Key Largo (do Sul até Key Largo, mas deixa isso pra lá). E o quanto ficava perto de Cuba. Toda a região abaixo dos seus seios era o verde e lindo mar do Caribe. Ela soltava gritos-minipavor de cócegas assim que eu me deslizava pelo branco e liso mapa. Eu contava a ela todas as passagens estreitas de uma ilha a outra enquanto deslizava a ponta do meu dedo médio pelas suas costas, atravessando a barriga. Minha digital de calos de cordas, pele de casca, devia mesmo causar uma sensação. Gritinhos-minipavor.
Eu era todo de pele de casca, mas por dentro gemia em devoção porque o dia era lindo, as coisas eram calmas e a morte escura e os olhos fechados estava longe daquele lugar.
Planejávamos em como novamente fugir – aquela tarde já nos era uma fuga do dia, da cidade, do mundo, dos outros, de nossos presentes recentes, passados distantes – e iriamos à Flórida sentir o sol e ela confessava como iria passar seus dias em Orlando, como criança, visitando os parques e os castelos das princesas. “São quantas princesas?”, mas ela não sabia e eu enfiava gelo na taça pra gelar o resto de espumante esquecido do almoço. E enfiava gelo nela, puxando de volta com a boca, língua de anzol, sugando verdades.
E depois: as Florida Keys. De Miami a Key West. Um passeio distante, tão velho e renovado pela minha pélvis doendo. Eu havia sido redescoberto. O mar do Caribe estava calmo naquele instante, sem rastros de piratas ou guardiões da escuridão e os peitos dela fazendo sombra a quase todas as ilhas, principalmente, à República Dominicana e as Bahamas. Enquanto eu soluçava por dentro de emoção, a dor na pélvis, aquilo tudo sendo muito engraçado e poético, como os passes de mágica são. E de repente eu retornava com meu dedo à ilha anterior por haver esquecido a sequência correta de nomes por onde passaríamos. E meus dedos éramos nós, seu corpo a doce estrada e aquele caminho era o caminho a ser nosso. Porque a vida era a ser nossa. Ela se segurava para não se contorcer. Era uma tarde suspensa na linha do tempo, que talvez nem tivesse existido. Como nos dias bons que colecionamos pela existência e que lembramos com tanto carinho que podemos jurar que nunca aconteceram. E talvez nem tenham, uma vez que não voltam. Ali, presenciávamos história e mágica.
“Mas se você quiser conhecer a Costa Oeste, a Califórnia…”, e escorri minha mão até a volta das suas pernas lentamente, aí sim, fazendo-a se dobrar por completo de cócegas e agonia.
Mais cedo, eu bebia enquanto, logo após o almoço, ela narrava pequenos e leves dramas cotidianos. Eu tinha minha acidez perdida, eu vinha de outro lugar da vida bem distante daquela realidade, talvez de qualquer realidade que envolva dramas cotidianos. Eu era uma ilusão de mim mesmo e para mim mesmo. E me encerrava enganando os outros de que eu existia. Eu estava com nojinho da minha seleta paciência e – mais – interesse naquilo tudo. As pernas cruzadas e a estranha sensação de que aquela fofoquinha me pertencia, muito embora eu tivesse acabado de chegar naquela vida. As pernas finas delas se apoiavam na planta do pé no assento da cadeira de tal forma que me abstraí do relato sobre escolas de criança, professoras relapsas, mensalidades caras e folhas de papel A4, para só pensar em como estaria a buceta dela naquele momento, naquela dobra de perna apertada. Eu só pensava em bucetas e em tarde de pileque.
Aí, fui escorregando, descendo por debaixo da mesa e explicando o que eu precisava fazer. Ela não se mexeu, entre o susto e a felicidade, “não me olha com essa cara”, já que ela me abraçava com um olhar de quem não conseguia evitar com que as palavras escorressem, molhadas e pastosas de açúcar, de seus olhos. E foi o que eu disse. “As palavras escorrem dos seus olhos”. E ela não respondeu. Era uma curva escura e familiar a das suas pernas por onde eu havia acabado de sair, meus olhos arderam um pouco quando lhe beijei no final da coxa, inspirando o “seu cheiro nosso” de instantes passados. E voltei à mesa, à conversa, ao esporro na professora relapsa.
A parte mais hedonista do corpo é a boca.
Não parávamos de nos querer, de nos alimentar do outro, roubando fluidos, gostos e devolvendo a vontade de saciar, de olhar como nossos esforços transfiguravam o rosto do outro em prazer, expressões profundas de contato com a alma e o gozo. Éramos um xamã do prazer alheio e, no tato pela escuridão de quem não precisa ver com olhos, descobríamos lugares escondidos.
“Hoje tem novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e eu vou”. O assunto surgiu do mesmo lugar onde saímos nós dois até aquele encontro inexplicável. Eu, há anos era sujo e gasto demais para ela. Ela era frágil e com o encaixe natural demais pra mim. De resto éramos desconhecidos, estranhos – o quanto seriamos opostos? e o quanto estaríamos envolvidos, amarrados pela dura-mater? – e nos enlaçávamos naquela cama numa tarde escondida como dois amantes conectados. Xamânicos um do outro. “Mas você está com sono, como vai em reza com sono, vai é dormir”. Claro que não, ela me disse. Até porque a Santa não dorme e sempre olha por todos nós, disse, e ela precisava pedir que a santa nos protegesse e blá blá blá de Deus, Jesus (foda-se, Jesus, ela disse, blasfemando sem ver e depois pedindo desculpas e emendando a explicação de como era confessar-se ao padre, mas isto eu vou lembrar depois) e tudo mais aquilo.
“Como a Santa não dorme? É um zumbi? Uma santa comedora de cérebros”, eu perguntei para, no instante seguinte, avançar em cima dela pegando sua cabeça pequena com minhas duas mãos e trazendo à minha boca nada zumbi de comedor de cérebros. “Eu sou Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e eu como cérebros”.
“Preciso gozar de novo”, eu disse. Era a ideia de sempre: foder até perder o gosto. E nos fodemos novamente com a intensidade de apaixonados, selvagens desconhecidos. As conversas entre pessoas apaixonadas não tem compromisso com o sentido. E foi uma conversa de horas.
“Você gosta de mim?” – ela perguntou pontuando toda a tarde numa indagação que ela precisava muito da resposta. Eu me calei, disse que não fazia sentido me perguntar aquilo, que ela descobrisse. Mas ouvi alguém dentro de mim dizer “baby, se nossa vida for uma repetência de tudo que acontece nesta tarde, eu passo a minha vida com você”. Na minha cabeça ela sorria, sem controle. Sorria bobamente como alguém que pensa que é possível ser plenamente feliz ao longo de uma existência.
E era como se quase nos amássemos.
Quando saímos, já era o fim da tarde, chovia, e uma música nos fez olhar um pro outro e sorrir.
E depois gargalhar. Porque compreendíamos o que estava acontecendo naquele singular momento do tempo, ainda que nós fossemos o tempo.
Eu tinha em mim todos os nossos gostos presentes no corpo dela. Soltei gritos-minipavor, mas ela não ouviu porque o som da vida que acabávamos de construir estava alta demais.





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